Lá atrás falei-vos de engenharia demográfica, e só não falei mais porque, tendo levado logo o argumento do tanque de água ao fundo, seria escusado continuar a malhar em ferro frio.
No entanto, e considerando que não ficou claro que o argumento do aumento descontrolado da população não é responsável pelas misérias humanas, vamos ver então porque é que as sociedades humanas caminham para becos sem saída, melhor dizendo, que desembocam sempre em tragédias, guerras, fome, destruição, recomeçando tudo de novo (depois da tempestade vem a bonança), enterra-se os mortos, esquece-se as mazelas, erige-se estátuas aos mártires (idiotas) que tombaram na luta por um mundo melhor, isto é, àqueles que não faziam cá falta alguma, antes pelo contrário, tipo Che Guevaras e outros. Tenho uma enorme admiração por crápulas como Pinochet, Hitler, Pol Pot e outros que simplesmente metiam os excedentários em campos de futebol ou de concentração e matavam-nos ali mesmo sem contemplação, nem qualquer justificação elaborada. Bastava uma simples acusação de natureza étnica, religiosa ou ideológica para acabar com os excluídos, aqueles que não cabem no esquema de sobrevivência social sem prejudicar gravemente os outros que pretendem ter muito mais que a sua conta. Mas devo também homenagem aos ideólogos desta nossa sociedade porque esta ideologia visa também a eliminação dos excedentários mas por métodos científicos que merecem o apoio das próprias vítimas.
- Porque é que isso se torna imperioso? – perguntar-se-ão os leitores.
Uma sociedade primeva em que todos tivessem o seu lugar, onde reinasse a concórdia entre os seus poucos membros, e que, com o andar do tempo, passa naturalmente a ter mais gente mas mantendo a proporção de jovens, adultos e velhos, pode ser decomposta em partes iguais à sociedade primitiva, permanecendo a funcionar tão bem como aquela. E não funciona porquê? Porque viver no meio de uma multidão não é o mesmo que viver em pequenas sociedades. Porque, como dizia Eça de Queirós, em A cidade e as Serras, «O Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria.»
E é na cidade que aparecem os excedentários, é nas cidades que se geram os guetos e os ódios e a convicção de que o mundo é estreito, que não há espaço para tanta gente, há que arranjar uma forma de mandar essa gente para a fogueira: ou porque são pretos, ou porque são jovens em risco (sem alternativas), hereges, ou por isto ou por aquilo. Jamais os outros concidadãos reconhecerão que têm culpas no cartório, que fizeram, por exemplo, filhos fora de casa e não quiseram saber deles, preferiram que fossem parar à rua ou, com alguma sorte, à Casa Pia. Jamais os governos admitirão que deixaram entrar gente de fora que vinha na mira de um Eldorado nas grandes cidades mas acaba na maior das misérias, a moral, e envereda pelo crime, tanto mais que são ilustres desconhecidos. Honra seja feita aos indianos e chineses, de que não se ouve falar, o que não quer dizer nada porque os merdia só dizem o que convém. Fica-se com a ideia que os «perturbadores» são só os brasileiros, pretos, ciganos e, já menos, os de Leste.
E os nossos jovens desempregados? O que fazer com eles? Alguns deles podem ser mandados para as várias guerras a que os nossos aliados nos obrigam. E é vê-los todos contentes, de óculos escuros e fardas todas catitas, e todos cheios de importância, a embarcar nos aviões, deixando mulheres e filhos entregues a si mesmos e que os esperam com o credo na boca: «que acabe depressa essa maldita comissão que vai, contudo, permitir juntar uns cobres para comprar uma casita». E esses são os sortudos que apanham por vezes com radiações no Kosovo, ou alguma mina no Afeganistão! Os restantes jovens…, bem, alguns podem candidatar-se também a seguranças e bombeiros, há que canalizar essas energias para fins pacíficos, mais vale ser segurança do que bandido. Não nos esqueçamos que os jovens têm também grandes empregos nos call centers e nos super-mercados, só não trabalha quem não quer, todos os outros são malandros e tornam-se drogados, ou dedicam-se a negócios ilícitos, tornam-se bandidos… o que nem é mau porque também são necessários bandidos para dar emprego aos que se dedicam à segurança, aos advogados, aos juízes, etc.. O que seria dos médicos, por exemplo, sem doentes? Uma sociedade em que seguranças, bombeiros, sanitaristas, juristas e, à falta de melhor, educadores, são as profissões mais cobiçadas, tem que haver bandidos, incendiários, doentes, trafulhas, pedófilos e ignorantes em quantidades suficientes para suprir os profissionais. Pelos vistos, e como o desemprego já atinge estes grupos profissionais, principalmente o dos professores, há que tomar medidas para que o número de doentes, bandidos e ignorantes não diminua. Há que fazer render o peixe, e os profissionais têm consciência disso.
Portanto, e como vêem, está tudo muito bem organizado na nossa sociedade, todos ocupam os seus lugares como as peças de uma máquina perfeita, funcionando às mil maravilhas.