Quando, em 1982, fui requisitado pelo Governo Regional da Madeira para chefiar a Divisão de Energias Renováveis (DER) do então embrionário Laboratório Regional de Engenharia Civil, uma das primeiras coisas que realizei foi um programa de medição do vento na região, com início na Ilha do Porto Santo, e com vista ao aproveitamento da energia eólica. Cuidei pessoalmente, e com a colaboração dos elementos do quadro da DER, de todos os detalhes, do projecto à execução e montagem de equipamentos em diversos locais previamente escolhidos. Trabalhei com serralheiros e pedreiros, desloquei-me aos locais, orientei e ajudei a montar. Estudei acerca do vento, aprendi com meteorologistas do INMG a ler os registos e a transpô-los para os mapas de registo. O programa de medição do vento no Porto Santo foi um sucesso, a recolha de dados foi quase a 100% e cobriu todo o ano de 1982. Uma orientação preciosa para o programa de medição do vento veio do Eng.º Humberto Fonseca do INMG que sempre foi um adepto fervoroso da energia eólica, mas que faleceu antes de ver o resultado do nosso esforço.
Em 1983 o Governo Regional da Madeira contratou, sob proposta da DER, a firma britânica ERA Technology para levar a cabo estudos suplementares do vento (turbulência e determinação do perfil em altitude), bem como um estudo de viabilidade económica para um projecto piloto de energia eólica no Porto Santo baseado nos dados de vento do programa de medição efectuado.
O resultado desse estudo, em que o trabalho de campo foi de novo feito pela DER, foi a escolha do local do projecto piloto, Cabeço do Carvalho, Porto Santo. Este estudo, pioneiríssimo em Portugal, foi apresentado ao público em 1984. Não tenho registo da data exacta, mas deve ter sido ainda durante o primeiro trimestre desse ano porque o estudo da ERA tem data de Dezembro de 1983.
O «estado da arte» da energia eólica nessa altura era de máquinas com potências da ordem das poucas dezenas de kW, 30, 40, 50, sendo as de 55 kW as de topo de gama.
O governo alemão tomou conhecimento do estado de avanço do projecto do Porto Santo e dos estudos levados a cabo que apontavam para a instalação de máquinas dinamarquesas até 55 kW de potência nominal. Estava a DER a tratar já do projecto de instalação do parque eólico, que iria possivelmente ser posto a concurso, quando é surpreendida pela oferta alemã de 8 aerogeradores da firma MAN de 30 kW cada.
O parque foi entregue para exploração à Empresa de Electricidade da Madeira, e ficou provada assim a viabilidade da utilização industrial da energia eólica em Portugal.
Porém, e apesar deste esforço pioneiro, a evolução que tiveram as energias renováveis no país foi uma desgraça. Portugal devia e podia ter acordado muito mais cedo. Quando o fez já foi tarde e não restou outra alternativa senão importar tecnologia estrangeira. Aliás é disso que a máfia local gosta, o que é que importa se o Zé tem que pagar a energia mais cara do mundo?
Hoje continuo a vislumbrar outras possibilidades tão promissoras como o vento foi outrora, mas sei que só daqui por alguns anos é que os espertos do costume se valerão das minhas ideias para fazer dinheiro, tal como fizeram com o vento.
Sei também que os espertos do costume vêm cá bisbilhotar ao blogue a ver se aprendem mais alguma coisa. Por exemplo, a ideia dos painéis fotovoltaicos nas casas que a EDP apadrinha é da minha autoria mas foi adulterada e desvirtuada.

















